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23 October 2010

E se eu começasse a escrever um livro? Daqui a uns anos estava rica!

Colocou a chave na porta e inspirou fundo durante 3 segundos enquanto pensava na calma que queria encontrar por trás daquela porta. O dia tinha-a derrotado e precisava de alguma paz e tranquilidade. Assim que abriu a porta o gato cumprimentou-a com a meiguice que só um gato sabe, fugindo-lhe por entre as pernas para o corredor, para explorar aquele pequeno mundo que era a entrada e o elevador. Já nem se dá ao trabalho de o chamar, é um gato, voltará quando precisar de alguma coisa. Vai à cozinha pousar o saco do pão e por o leite a aquecer antes de pousar a carteira. O mundo lá fora tinha-a fragilizado e precisar de uma grande caneca de leite com chocolate para a aconchegar. Aquece sempre o leite mais tempo nestes dias, para o sentir cair no estômago como uma paixão assolapada. Só então entra no quarto. Pousa a carteira e todos os restantes apetrechos que juntou nas restantes horas. Olha para as botas novas, ainda na caixa, ao canto. Tem de arranjar uma ocasião para as usar. Retorna à cozinha. Apetece-lhe encher-se de pão com manteiga, matar a gula, mas rende-se ao fiambre. Vingar-se-à no chocolate que atira às colheradas para dentro do leite. Resiste, à força, a enfiar uma colher daquele pó directamente na boca, como fazia quando era pequenina. Lembra-se como às vezes, engasgado-se, lhe saía pelo nariz numa sensação horrível e cómica. O gato voltou e mia, desolado, por causa do cheiro a fiambre que paira no ar. Quem o ouvisse diria que não como à dias, coitado do bicho. Enquanto abre o pão pergunta-se se o telemóvel terá tocado. Se alguém lhe terá mandado um email. Anda demasiado vidrada em tecnologias e redes sociais. Parece que é o único contracto amigável que consegue manter com o mundo. É o mais fácil também. Basta contar umas piadas e fazer uns quantos comentários despropositados. Mais tarde volta para ver se houve reacções.
Entra no quarto com a caneca e o prato na mão. A cama ainda está por fazer, é sempre assim quando está sozinha e não espera companhia. Nunca percebeu o propósito de tal coisa. Liga a televisão e pousa o prato sobre o teclado do computador portátil, ainda ligado a tirar da net os últimos episódios de um conjunto de séries que acompanha semanalmente. O gato já se atirou para cima da cama a espera ansiosamente a oportunidade de se fazer ao fiambre.
-Ladrão. Vais lá para fora que a dona quer comer sossegadinha, tá bem?
Fala com ele enquanto o pega ao colo, como se ele percebesse alguma coisa do que ela diz. Ele encosta o focinho à sua bochecha e ronrona de mimo. Ela não deixa conquistar e fecha-o do outro lado da porta, onde começa a protestar em miados agudos e persistentes.
Na televisão dá mais uma série repetida. Nem se dá ao trabalho de mudar. Só quer um bocadinho de companhia para o lanche. O som da televisão ao fundo bloqueia o inicio dos sentimentos de solidão. O lanche é acompanhado pela actualização das redes sociais, email, meteorologia e afins. Pensa no que vai fazer para o jantar. Não tem fome portanto não faz sentido pensar nisso agora. Logo se verá.
Volta à cozinha para arrumar a loiça e trazer o gato para a sua beira. Ele ainda reclama atenção e fa-lo até ser pegado ao colo. Atirou mais um biblot ao chão durante a sua ausência. Um calhau trazido pelo pai numa viagem de negócios sabe-se lá onde. No chão ficou uma marca de dor no soalho de madeira. A parede também levou por tabela e tem uma marca na tinta. Nem se dá ao trabalho de reagir, pega apenas na pedra e coloca-a de novo na beira da janela.
Está a precisar de um banho. O frio que se faz sentir lá fora não foi suficiente para evitar uma mancha de suor na pequena corrida que fez antes de voltar para casa. Mas a preguiça instalou-se quer deitar-se na cama um bocadinho antes de passar aos rituais de higiene.
Há meses que não desliga o cérebro. Sente-se perdida na sua própria vida. Perdeu-lhe as rédeas. Multiplicam-se as vezes que se deixa estar a vegetar na cama, à espera que algo de novo e entusiasmante lhe surja na vida. Cansou-se da luta e do pensamento positivo. É algo que vem e vai na sua vida. Sente-se instável e inconstante. Foi assim a sua vida toda. Mas ultimamente anda pior. Enervada. Impaciente.Olha para o telemóvel, imóvel e quieto na beira da mesa. Tem de ligar o despertador. Tem de dormir cedo. A vida presenteou-a com este emprego que de quando a quando a tira da cama às 2h30 da manhã. Logo hoje, que queria sair. Sair com as botas novas e uma saia bem curta. Sabe-se lá se não era hoje que se ia cruzar com alguém interessante. Com algo fresco e entusiasmante. Lá no fundo sabe, se não tivesse de acordar cedo estaria agora a multiplicar-se em desculpas para não ir a lado nenhum. É sempre assim. Anda imóvel e inerte perante a vida. Deixa-se ficar, ao sabor da corrente. Falta-lhe a força e determinação para remar de encontra àquilo que quer. Remar para algo novo, diferente. Melhor ou pior. Senta-se energicamente na cama como a força de quem vai mudar o mundo, sabe que tem de agarrar a vida pelos cornos e tomar-lhe a rédea. Depois enterra-se mais fundo na almofada e deixa-se ficar.

24 September 2007

A menina mágica

Há uma menina, uma coisa pequenina, não tem mais de sete centímetros, que mora neste quarto. Terá talvez um pouco mais. Quando eu chego, vem-se sentar à minha beira. Tem um longo cabelo loiro que cheira a amora. Ou framboesa, não sei ao certo. Cruza as pernas sobre um qualquer pacote de lenços de papel que eu tenha por aqui e em dias como o de hoje, atira-me o seu sorriso mais doce.
Foi numa noite de verão que a pequenina me apareceu pela primeira vez. Quando me sentei aqui, como sempre faço, conseguia ouvir um choro baixinho que parecia vir do outro lado da parede. Assustei-me quando vi uma coisa tão pequenina sair de trás da coluna. Apeteceu-me tocar-lhe, mexer-lhe... será que falava? Será que eu percebia? Seria uma fada? Lembrei-me da sininho, do peter pan. Quando alguém dizia que não acreditava em fadas, uma fada, algures no mundo, morria. Quantas vezes teria eu já dito que não acreditava em fadas? Então e o coelho da pascoa? Seria esse real também? Adiante, pensei. Agarrei num lenço de papel e rasguei um pequeno pedacinho que lhe dei para ela limpar as lágrimas. Foi quando ela falou. Agradeceu e eu fiquei a olhar, muda. "O que és tu?", passou-me pela cabeça perguntar, mas nunca gostei de pressionar as pessoas e isso parecia-me rude, mesmo que ela não fosse uma pessoa. Disse-lhe olá... e sorri. Foi então que ela me explicou. Há meninas mágicas neste mundo, meninas meigas, doces e muito muito frágeis. Ela era uma dessas meninas. Tinha sido, um dia, uma menina como eu, grande. Quando era grande encontrou um menino especial, ou achou que tinha encontrado. Mas o menino dela não era afinal aquilo com que ela sempre tinha sonhado (como eu já tenho feito também). Esse menino não sabia que ela era uma dessas meninas mágicas, meigas, doces e muito muito frágeis e magoou-a, calcou-a, amarrotou-a, ao ponto dela passar a ter apenas sete centímetros.
Hoje, essa menina vive comigo, aqui, para que eu me lembre que não me posso deixar magoar, calcar ou amarrotar, porque se calhar também eu sou uma dessas meninas mágicas, meigas, doces e muito muito frágeis.