15 September 2011
20 March 2011
É sempre assim com as epifanias. Acordam-nos cedo a um sábado de manhã. Começam a surgiu dentro de nós, de mansinho, como um gato que se vem enroscar na nossa barriga. Quase não damos por ele, com aquelas patinhas fofas e leves. Depois ataca tipo tsunami. Sentimos a terra tremer por momentos e quando o sossego parece instalado de novo, vem uma onda de 10 metros na nossa direcção. E não há absolutamente nada a fazer.
Tenho sentido o meu mundo abalar nos últimos dias. A terra treme à minha volta numa tentativa de fazer colapsar o mundo que criei nos últimos meses. Mas foi só hoje de manhã que acordei com a sensação que vinha por aí algo mais. E veio. Uma onda de angustia e realidade que deitou por terra tudo. Tudo.
Já me conheço. E conheço esta minha maneira de me transformar em algo que não sou quando tudo aquilo que quero não vem. Ou morre.
Não sei como cheguei aqui. Nunca sei. Perco o norte. Perco tudo.
Não é a ti que procuro, nem a ti que quero. Sei-o bem. Procuro ainda o sonho que tu misturaste no teu cheiro, no teu corpo. Confundes-me com sexo. Porque sabe bem. Familiar. Principalmente nas alturas em que te deixas adormecer na minha cama ou segues os passos sozinho para ir à varanda fumar um cigarro. Mas mesmo depois de saires, ficas. Fica, inevitavelmente, o teu cheiro. Fica a tua toalha. Fica a sensação de algo que não és, nem quero que sejas. Mas o teu mimo conforta-me. E relembra-me daquilo que o meu ser anseia. À tanto tempo. E há dias em que me faz acordar assim. Com todas as perguntas de volta à minha cabeça. Porquê? Porque é que eu não consigo ter alguém na minha vida? Porque é que não consigo manter ninguém na minha vida? O que sou eu de errado? Onde foram todos os meus sonhos? Diz-me. Alguém?
Tenho sentido o meu mundo abalar nos últimos dias. A terra treme à minha volta numa tentativa de fazer colapsar o mundo que criei nos últimos meses. Mas foi só hoje de manhã que acordei com a sensação que vinha por aí algo mais. E veio. Uma onda de angustia e realidade que deitou por terra tudo. Tudo.
Já me conheço. E conheço esta minha maneira de me transformar em algo que não sou quando tudo aquilo que quero não vem. Ou morre.
Não sei como cheguei aqui. Nunca sei. Perco o norte. Perco tudo.
Não é a ti que procuro, nem a ti que quero. Sei-o bem. Procuro ainda o sonho que tu misturaste no teu cheiro, no teu corpo. Confundes-me com sexo. Porque sabe bem. Familiar. Principalmente nas alturas em que te deixas adormecer na minha cama ou segues os passos sozinho para ir à varanda fumar um cigarro. Mas mesmo depois de saires, ficas. Fica, inevitavelmente, o teu cheiro. Fica a tua toalha. Fica a sensação de algo que não és, nem quero que sejas. Mas o teu mimo conforta-me. E relembra-me daquilo que o meu ser anseia. À tanto tempo. E há dias em que me faz acordar assim. Com todas as perguntas de volta à minha cabeça. Porquê? Porque é que eu não consigo ter alguém na minha vida? Porque é que não consigo manter ninguém na minha vida? O que sou eu de errado? Onde foram todos os meus sonhos? Diz-me. Alguém?
01 March 2011
A sensação é a mesma que se tem quando se mete a cabeça debaixo de água num banho de imersão. Paira a calma. Ou será apenas o silêncio? Não estou habituada a sentir este sossego na minha alma. Ou será antes apatia? Não me sei. Estou habituada às emoções forte que a minha alma me manda, quase sempre contra a minha vontade. Paixões, raivas, impaciências. Não sei levar a vida assim, nesta calmaria. Nem sei se gosto. Nem sei se deva. Simplesmente, não me sei. Estranho-me. Inquieta-me esta falta de inquietude. Só porque sei que quando tudo voltar, será provavelmente, devastador.
01 February 2011
O meu corpo já não reconhece as horas. Sente-se baralhado e decide despertar. Sente-se estranho sem ti. O banho levou-lhe o cheiro, a saliva e o suor. Sente-se leve e despido. Como a alma que o preenche.
A vida devia ser sempre assim, simples e linear. Carnal. Básica. Sem consequências, sem premeditações. Talvez não faça sentido ser sempre assim, mas hoje, agora, faz. Agora que já nada sei do amor, da entrega e da dedicação. Agora que só reconheço o desejo, a adrenalina e o prazer. A vida vive-se ao segundo, no linha que separa aquilo que sabe bem daquilo que terá consequências.
O corpo pesa-me e doi-me. Da tua boca no meu pescoço, das tuas unhas na minha coxa. Marcas daquilo a que me resumo, nas horas em que tudo o que sei é que me apeteces. E neste momento apeteces-me, uma e outra vez.
A vida devia ser sempre assim, simples e linear. Carnal. Básica. Sem consequências, sem premeditações. Talvez não faça sentido ser sempre assim, mas hoje, agora, faz. Agora que já nada sei do amor, da entrega e da dedicação. Agora que só reconheço o desejo, a adrenalina e o prazer. A vida vive-se ao segundo, no linha que separa aquilo que sabe bem daquilo que terá consequências.
O corpo pesa-me e doi-me. Da tua boca no meu pescoço, das tuas unhas na minha coxa. Marcas daquilo a que me resumo, nas horas em que tudo o que sei é que me apeteces. E neste momento apeteces-me, uma e outra vez.
21 December 2010
Uma vez que este blog nunca foi partilhado com pessoas da minha família e o risco de que alguma delas tenha acesso a estes pensamentos é baixo vou libertar a minha alma numa explosão de lamechice:
em 27 anos de existência é o primeiro natal que vou passar com o meu tio. E não, não consigo pensar em prenda melhor! :)
em 27 anos de existência é o primeiro natal que vou passar com o meu tio. E não, não consigo pensar em prenda melhor! :)
28 November 2010
Ontem, durante umas horas, perdi-me entre álbuns de fotografias. Adoro fotografias antigas, mesmo quando são de pessoas que não conheço. Gosto principalmente de fotos a preto e branco ou as primeiras fotos a cores, com aquela tonalidade amarelada e exposição tão características. Gosto particularmente das fotos com paisagem urbana, onde se vêm ruas salpicadas de carros pequeninos e redondos. Ora verdes, ora bege.
Fiquei com a clara certeza que a vida era mais simples naqueles dias. A felicidade mais fácil. O materialismo que se instalou no nosso mundo matou-o. Já não sabemos ser felizes com pouco. Já não sabemos aproveitar as coisas simples da vida. Tudo é rápido e fugaz. Nesses tempos convivia-se. Foi nesses tempos que nascer o amor-e-uma-cabana. Amor esse que agora só se faz em T2 de luxo e jantares à luzes de velas com prendas pelo meio. Já não se cultivam relações. Cultiva-se materialismo e sexo. Muitas vezes em troca de algum tipo de materialismo.
Estava um dia lindo de quase-quase inverno. O sol aquecia corpos e almas a quem quisesse. E na esplanada dos cafés não pairava quase ninguém. As pessoas deixaram de saber conviver. De partilhar ideias e presenças físicas. Tornou-se tudo virtual. Cada um no cantinho do seu lar, onde as ideias dos outros só penetram se nos dermos ao trabalho que as ler. Tudo controlado. Quase esterilizado. As pessoas não se misturam, não se combinam. Nem nas amizades, nem nas relações.
Curiosamente, quando se preparava para passar todas estas ideias para o mundo virtual (com o devido toque de cinismo, claro, não estivesse eu também confortavelmente sentada no quentinho do meu lar) debatia-se na televisão o impacto desde estilo de vida na vida sexual e amorosa dos nossos dias. Ele que só vai para a cama às 3h da manhã porque fica a jogar PS3, ela que está demasiado preocupada com perder o emprego para sequer conceber a ideia de sexo. Passa o dia separados e adoravam chegar a casa e não estar lá ninguém para lhes dar cabo da cabeça. Entretêm-se constantemente com outras pessoas, que buscam apenas o sexo numa relação. Simplificam. Esterilizam. E eu, mais uma vez penso, não quero viver aqui.
Fiquei com a clara certeza que a vida era mais simples naqueles dias. A felicidade mais fácil. O materialismo que se instalou no nosso mundo matou-o. Já não sabemos ser felizes com pouco. Já não sabemos aproveitar as coisas simples da vida. Tudo é rápido e fugaz. Nesses tempos convivia-se. Foi nesses tempos que nascer o amor-e-uma-cabana. Amor esse que agora só se faz em T2 de luxo e jantares à luzes de velas com prendas pelo meio. Já não se cultivam relações. Cultiva-se materialismo e sexo. Muitas vezes em troca de algum tipo de materialismo.
Estava um dia lindo de quase-quase inverno. O sol aquecia corpos e almas a quem quisesse. E na esplanada dos cafés não pairava quase ninguém. As pessoas deixaram de saber conviver. De partilhar ideias e presenças físicas. Tornou-se tudo virtual. Cada um no cantinho do seu lar, onde as ideias dos outros só penetram se nos dermos ao trabalho que as ler. Tudo controlado. Quase esterilizado. As pessoas não se misturam, não se combinam. Nem nas amizades, nem nas relações.
Curiosamente, quando se preparava para passar todas estas ideias para o mundo virtual (com o devido toque de cinismo, claro, não estivesse eu também confortavelmente sentada no quentinho do meu lar) debatia-se na televisão o impacto desde estilo de vida na vida sexual e amorosa dos nossos dias. Ele que só vai para a cama às 3h da manhã porque fica a jogar PS3, ela que está demasiado preocupada com perder o emprego para sequer conceber a ideia de sexo. Passa o dia separados e adoravam chegar a casa e não estar lá ninguém para lhes dar cabo da cabeça. Entretêm-se constantemente com outras pessoas, que buscam apenas o sexo numa relação. Simplificam. Esterilizam. E eu, mais uma vez penso, não quero viver aqui.
Reflexos
Ontem revi-me. Pela primeira vez vi-me completamente reflectida noutra pessoa. Não o que sou, mas o que fui. E finalmente compreendi o que passaram aqueles que durante meses tiveram de me levar pela mão, numa luta constante e diária, para me tirar do chão em que teimei deitar-me.
Custa, dói, frustra, ver alguém preso debaixo de anos de memórias longínquas, incapaz de avançar, um pouquinho que seja, em direcção ao futuro que se presenteia diariamente à nossa frente, limpo, novo. Principalmente quando são pessoas que merecem esse futuro, pessoas boas e dignas, castigadas pelos erros da vida ou pela simples inocência das decisões.
Todos nós temos uma altura na vida em que caímos, sem rede, num abismo qualquer. E a primeira vez que o fazermos é aterrador. A queda é longa e a recuperação dura. Não sabemos como voltar a assentar os pés na terra, tentando perceber como foi que nos colocamos naquela posição. Ficamos amedrontados e receosos que o mesmo suceda vezes e vezes sem conta. Ficamos soterrados em memórias, fantasmas, receios. Paramos, simplesmente, de viver. Aterrador.
Eu arranjei maneira de sair daí, aos poucos. Apoiando-me num e noutro pilar. Disseram-me um dia, três Rita, mantêm na tua vida sempre três pilares, quando as ondas do mundo vierem, eles manter-te-ão de pé, sempre. E mantiveram.
Quando a coragem volta, tudo é mais fácil. Aprendemos a enfrentar o mundo de peito aberto, porque sabemos, lá no fundo, que já nada nos pode derrotar. Quando se cai a primeira vez acontece uma coisa muito boa e uma coisa muito má. Perdemos a nossa inocência e fé no mundo em prol da certeza que sempre, sempre, teremos em nós a força para voltar a tentar.
Não sei como te estender a mão. Não sou a pessoa certa para o fazer. Mas queria conseguir fazer-te perceber que estás a desperdiçar a tua felicidade nessa gruta onde te enfiaste. Queria explicar-te que cá fora o sol brilha, muitas vezes por entre nuvens. E que vale a pena. Vale sempre a pena.
Eu, mantenho em mim todos os sonhos do mundo. Devias fazer o mesmo.
Custa, dói, frustra, ver alguém preso debaixo de anos de memórias longínquas, incapaz de avançar, um pouquinho que seja, em direcção ao futuro que se presenteia diariamente à nossa frente, limpo, novo. Principalmente quando são pessoas que merecem esse futuro, pessoas boas e dignas, castigadas pelos erros da vida ou pela simples inocência das decisões.
Todos nós temos uma altura na vida em que caímos, sem rede, num abismo qualquer. E a primeira vez que o fazermos é aterrador. A queda é longa e a recuperação dura. Não sabemos como voltar a assentar os pés na terra, tentando perceber como foi que nos colocamos naquela posição. Ficamos amedrontados e receosos que o mesmo suceda vezes e vezes sem conta. Ficamos soterrados em memórias, fantasmas, receios. Paramos, simplesmente, de viver. Aterrador.
Eu arranjei maneira de sair daí, aos poucos. Apoiando-me num e noutro pilar. Disseram-me um dia, três Rita, mantêm na tua vida sempre três pilares, quando as ondas do mundo vierem, eles manter-te-ão de pé, sempre. E mantiveram.
Quando a coragem volta, tudo é mais fácil. Aprendemos a enfrentar o mundo de peito aberto, porque sabemos, lá no fundo, que já nada nos pode derrotar. Quando se cai a primeira vez acontece uma coisa muito boa e uma coisa muito má. Perdemos a nossa inocência e fé no mundo em prol da certeza que sempre, sempre, teremos em nós a força para voltar a tentar.
Não sei como te estender a mão. Não sou a pessoa certa para o fazer. Mas queria conseguir fazer-te perceber que estás a desperdiçar a tua felicidade nessa gruta onde te enfiaste. Queria explicar-te que cá fora o sol brilha, muitas vezes por entre nuvens. E que vale a pena. Vale sempre a pena.
Eu, mantenho em mim todos os sonhos do mundo. Devias fazer o mesmo.
25 November 2010
Amor em estado gasoso
Hoje acordei com uma epifania: o amor começa sempre em estado gasoso. É apenas uma ideia que nos invade, uma realização de que aquela pessoa afinal é anormal. É mais interessante ou mais bonita ou mais inteligente ou mais sensual ou mais cativante que as restantes pessoas que nos invadem o espaço. E ao inicio, não passa disso, de algo arbitrário e passageiro na nossa mente. Depois podemos começar a cismar nessa anormalidade dessa pessoa, juntado-lhe mais e mais características que nos interessam e nos fascinam e a bolha de gás que é o pensamento sobre esse dito ser, cresce e torna-se mais frequente e mais presente na nossa vida. Até ao dia em que simplesmente deixa de nos caber dentro da cabeça. A pressão aumenta, pressiona-nos, massa-nos a existência. E de repente, num dia, num instante, temos essa pessoa mesmo à nossa frente. Basta um só toque leve num ombro. BOOP, a bolha rebenta-se e aquele todo que é aquilo que imaginamos ao longo do tempo entra-se-nos pela alma num arrepio gélido, quase instantâneo. É o amor em estado líquido. Agora já não há nada a fazer, ele flui-nos nas feias, com o oxigénio ou o croissant da manhã. Existe dentro de nós, tão naturalmente como todo o resto no nosso ser. Respiramo-lo, sentimo-lo, vivemo-lo. Na esperança que um dia ele se torne em estado sólido. :)
17 November 2010
13 November 2010
E com este post se levantar a greve. Nunca fui muito activista no que diz respeito a politica. E tenho noção que o impacto da minha greve é nulo. Mas não acredito na paralisação de um país com as dificuldades com que está o nosso, principalmente porque a diminuição de produtividade que isso implica é produzida por pessoas que nem sabem ao certo porque é que estão de greve e fazem-no porque está de chuva e preferem ir para o café ou ver montras com as amigas, agarrando-se a uma justificativa socialmente aceite. Cada um faz aquilo que a sua consciência o permite. Eu privei-me dos meus desabafos em prol de... possivelmente nada. Foi o que a minha consciência pediu.
05 November 2010
03 November 2010
27 October 2010
Mudança de ares
Hoje abriu-se a porta ao outono por aqui! Era tempo de mudança. Agarra-se o laranja das folhas e o vermelho do sol e mistura-se tudo numa nova força para encarar o mundo. Quente. E vivo.
23 October 2010
E se eu começasse a escrever um livro? Daqui a uns anos estava rica!
Colocou a chave na porta e inspirou fundo durante 3 segundos enquanto pensava na calma que queria encontrar por trás daquela porta. O dia tinha-a derrotado e precisava de alguma paz e tranquilidade. Assim que abriu a porta o gato cumprimentou-a com a meiguice que só um gato sabe, fugindo-lhe por entre as pernas para o corredor, para explorar aquele pequeno mundo que era a entrada e o elevador. Já nem se dá ao trabalho de o chamar, é um gato, voltará quando precisar de alguma coisa. Vai à cozinha pousar o saco do pão e por o leite a aquecer antes de pousar a carteira. O mundo lá fora tinha-a fragilizado e precisar de uma grande caneca de leite com chocolate para a aconchegar. Aquece sempre o leite mais tempo nestes dias, para o sentir cair no estômago como uma paixão assolapada. Só então entra no quarto. Pousa a carteira e todos os restantes apetrechos que juntou nas restantes horas. Olha para as botas novas, ainda na caixa, ao canto. Tem de arranjar uma ocasião para as usar. Retorna à cozinha. Apetece-lhe encher-se de pão com manteiga, matar a gula, mas rende-se ao fiambre. Vingar-se-à no chocolate que atira às colheradas para dentro do leite. Resiste, à força, a enfiar uma colher daquele pó directamente na boca, como fazia quando era pequenina. Lembra-se como às vezes, engasgado-se, lhe saía pelo nariz numa sensação horrível e cómica. O gato voltou e mia, desolado, por causa do cheiro a fiambre que paira no ar. Quem o ouvisse diria que não como à dias, coitado do bicho. Enquanto abre o pão pergunta-se se o telemóvel terá tocado. Se alguém lhe terá mandado um email. Anda demasiado vidrada em tecnologias e redes sociais. Parece que é o único contracto amigável que consegue manter com o mundo. É o mais fácil também. Basta contar umas piadas e fazer uns quantos comentários despropositados. Mais tarde volta para ver se houve reacções.
Entra no quarto com a caneca e o prato na mão. A cama ainda está por fazer, é sempre assim quando está sozinha e não espera companhia. Nunca percebeu o propósito de tal coisa. Liga a televisão e pousa o prato sobre o teclado do computador portátil, ainda ligado a tirar da net os últimos episódios de um conjunto de séries que acompanha semanalmente. O gato já se atirou para cima da cama a espera ansiosamente a oportunidade de se fazer ao fiambre.
-Ladrão. Vais lá para fora que a dona quer comer sossegadinha, tá bem?
Fala com ele enquanto o pega ao colo, como se ele percebesse alguma coisa do que ela diz. Ele encosta o focinho à sua bochecha e ronrona de mimo. Ela não deixa conquistar e fecha-o do outro lado da porta, onde começa a protestar em miados agudos e persistentes.
Na televisão dá mais uma série repetida. Nem se dá ao trabalho de mudar. Só quer um bocadinho de companhia para o lanche. O som da televisão ao fundo bloqueia o inicio dos sentimentos de solidão. O lanche é acompanhado pela actualização das redes sociais, email, meteorologia e afins. Pensa no que vai fazer para o jantar. Não tem fome portanto não faz sentido pensar nisso agora. Logo se verá.
Volta à cozinha para arrumar a loiça e trazer o gato para a sua beira. Ele ainda reclama atenção e fa-lo até ser pegado ao colo. Atirou mais um biblot ao chão durante a sua ausência. Um calhau trazido pelo pai numa viagem de negócios sabe-se lá onde. No chão ficou uma marca de dor no soalho de madeira. A parede também levou por tabela e tem uma marca na tinta. Nem se dá ao trabalho de reagir, pega apenas na pedra e coloca-a de novo na beira da janela.
Está a precisar de um banho. O frio que se faz sentir lá fora não foi suficiente para evitar uma mancha de suor na pequena corrida que fez antes de voltar para casa. Mas a preguiça instalou-se quer deitar-se na cama um bocadinho antes de passar aos rituais de higiene.
Há meses que não desliga o cérebro. Sente-se perdida na sua própria vida. Perdeu-lhe as rédeas. Multiplicam-se as vezes que se deixa estar a vegetar na cama, à espera que algo de novo e entusiasmante lhe surja na vida. Cansou-se da luta e do pensamento positivo. É algo que vem e vai na sua vida. Sente-se instável e inconstante. Foi assim a sua vida toda. Mas ultimamente anda pior. Enervada. Impaciente.Olha para o telemóvel, imóvel e quieto na beira da mesa. Tem de ligar o despertador. Tem de dormir cedo. A vida presenteou-a com este emprego que de quando a quando a tira da cama às 2h30 da manhã. Logo hoje, que queria sair. Sair com as botas novas e uma saia bem curta. Sabe-se lá se não era hoje que se ia cruzar com alguém interessante. Com algo fresco e entusiasmante. Lá no fundo sabe, se não tivesse de acordar cedo estaria agora a multiplicar-se em desculpas para não ir a lado nenhum. É sempre assim. Anda imóvel e inerte perante a vida. Deixa-se ficar, ao sabor da corrente. Falta-lhe a força e determinação para remar de encontra àquilo que quer. Remar para algo novo, diferente. Melhor ou pior. Senta-se energicamente na cama como a força de quem vai mudar o mundo, sabe que tem de agarrar a vida pelos cornos e tomar-lhe a rédea. Depois enterra-se mais fundo na almofada e deixa-se ficar.
Colocou a chave na porta e inspirou fundo durante 3 segundos enquanto pensava na calma que queria encontrar por trás daquela porta. O dia tinha-a derrotado e precisava de alguma paz e tranquilidade. Assim que abriu a porta o gato cumprimentou-a com a meiguice que só um gato sabe, fugindo-lhe por entre as pernas para o corredor, para explorar aquele pequeno mundo que era a entrada e o elevador. Já nem se dá ao trabalho de o chamar, é um gato, voltará quando precisar de alguma coisa. Vai à cozinha pousar o saco do pão e por o leite a aquecer antes de pousar a carteira. O mundo lá fora tinha-a fragilizado e precisar de uma grande caneca de leite com chocolate para a aconchegar. Aquece sempre o leite mais tempo nestes dias, para o sentir cair no estômago como uma paixão assolapada. Só então entra no quarto. Pousa a carteira e todos os restantes apetrechos que juntou nas restantes horas. Olha para as botas novas, ainda na caixa, ao canto. Tem de arranjar uma ocasião para as usar. Retorna à cozinha. Apetece-lhe encher-se de pão com manteiga, matar a gula, mas rende-se ao fiambre. Vingar-se-à no chocolate que atira às colheradas para dentro do leite. Resiste, à força, a enfiar uma colher daquele pó directamente na boca, como fazia quando era pequenina. Lembra-se como às vezes, engasgado-se, lhe saía pelo nariz numa sensação horrível e cómica. O gato voltou e mia, desolado, por causa do cheiro a fiambre que paira no ar. Quem o ouvisse diria que não como à dias, coitado do bicho. Enquanto abre o pão pergunta-se se o telemóvel terá tocado. Se alguém lhe terá mandado um email. Anda demasiado vidrada em tecnologias e redes sociais. Parece que é o único contracto amigável que consegue manter com o mundo. É o mais fácil também. Basta contar umas piadas e fazer uns quantos comentários despropositados. Mais tarde volta para ver se houve reacções.
Entra no quarto com a caneca e o prato na mão. A cama ainda está por fazer, é sempre assim quando está sozinha e não espera companhia. Nunca percebeu o propósito de tal coisa. Liga a televisão e pousa o prato sobre o teclado do computador portátil, ainda ligado a tirar da net os últimos episódios de um conjunto de séries que acompanha semanalmente. O gato já se atirou para cima da cama a espera ansiosamente a oportunidade de se fazer ao fiambre.
-Ladrão. Vais lá para fora que a dona quer comer sossegadinha, tá bem?
Fala com ele enquanto o pega ao colo, como se ele percebesse alguma coisa do que ela diz. Ele encosta o focinho à sua bochecha e ronrona de mimo. Ela não deixa conquistar e fecha-o do outro lado da porta, onde começa a protestar em miados agudos e persistentes.
Na televisão dá mais uma série repetida. Nem se dá ao trabalho de mudar. Só quer um bocadinho de companhia para o lanche. O som da televisão ao fundo bloqueia o inicio dos sentimentos de solidão. O lanche é acompanhado pela actualização das redes sociais, email, meteorologia e afins. Pensa no que vai fazer para o jantar. Não tem fome portanto não faz sentido pensar nisso agora. Logo se verá.
Volta à cozinha para arrumar a loiça e trazer o gato para a sua beira. Ele ainda reclama atenção e fa-lo até ser pegado ao colo. Atirou mais um biblot ao chão durante a sua ausência. Um calhau trazido pelo pai numa viagem de negócios sabe-se lá onde. No chão ficou uma marca de dor no soalho de madeira. A parede também levou por tabela e tem uma marca na tinta. Nem se dá ao trabalho de reagir, pega apenas na pedra e coloca-a de novo na beira da janela.
Está a precisar de um banho. O frio que se faz sentir lá fora não foi suficiente para evitar uma mancha de suor na pequena corrida que fez antes de voltar para casa. Mas a preguiça instalou-se quer deitar-se na cama um bocadinho antes de passar aos rituais de higiene.
Há meses que não desliga o cérebro. Sente-se perdida na sua própria vida. Perdeu-lhe as rédeas. Multiplicam-se as vezes que se deixa estar a vegetar na cama, à espera que algo de novo e entusiasmante lhe surja na vida. Cansou-se da luta e do pensamento positivo. É algo que vem e vai na sua vida. Sente-se instável e inconstante. Foi assim a sua vida toda. Mas ultimamente anda pior. Enervada. Impaciente.Olha para o telemóvel, imóvel e quieto na beira da mesa. Tem de ligar o despertador. Tem de dormir cedo. A vida presenteou-a com este emprego que de quando a quando a tira da cama às 2h30 da manhã. Logo hoje, que queria sair. Sair com as botas novas e uma saia bem curta. Sabe-se lá se não era hoje que se ia cruzar com alguém interessante. Com algo fresco e entusiasmante. Lá no fundo sabe, se não tivesse de acordar cedo estaria agora a multiplicar-se em desculpas para não ir a lado nenhum. É sempre assim. Anda imóvel e inerte perante a vida. Deixa-se ficar, ao sabor da corrente. Falta-lhe a força e determinação para remar de encontra àquilo que quer. Remar para algo novo, diferente. Melhor ou pior. Senta-se energicamente na cama como a força de quem vai mudar o mundo, sabe que tem de agarrar a vida pelos cornos e tomar-lhe a rédea. Depois enterra-se mais fundo na almofada e deixa-se ficar.
09 October 2010
Caiu-me a ficha
Tornei-me uma pessoa banal e desinteressante. Não reconheço a pessoa que sou ou as coisas que digo. As barbaridades saem-me pela boca fora, incontroladas e sem nexo. Sinto-me um desenho animado. Fora de controlo.
Houve um dia em que eu soube o que era. Houve uma altura em que eu soube que era uma boa pessoa. Incomum. Original. Dedicada. Divertida. Espirituosa. Meiga. Gentil. Não reconheço a pessoa que me olha ao espelho. Não lhe reconheço o medo e o rancor nos gestos e nas palavras. Tornei-me rígida. Intolerável. Seca. Tão ávida de algo novo e interessante que não o reconheceria se estivesse mesmo à minha frente. Estou fechada para o mundo. Não o aceito e não o tolero. Tornei-me azeda. Como um copo de leite abandonado durante dias e dias ao sol. Abandonaste-me. E eu abandonei o que fui. Para me tornar em algo que não gosto e não quero ser. Mas ainda faltam as forças. Os dias pesam e prolongam-se na ausência de mim e de nós. Permanece apenas a vontade de me enrolar numa bolinha e me deixar ficar sobre a cama.
Maybe tomorrow I'll buy the ticket. Maybe.
Houve um dia em que eu soube o que era. Houve uma altura em que eu soube que era uma boa pessoa. Incomum. Original. Dedicada. Divertida. Espirituosa. Meiga. Gentil. Não reconheço a pessoa que me olha ao espelho. Não lhe reconheço o medo e o rancor nos gestos e nas palavras. Tornei-me rígida. Intolerável. Seca. Tão ávida de algo novo e interessante que não o reconheceria se estivesse mesmo à minha frente. Estou fechada para o mundo. Não o aceito e não o tolero. Tornei-me azeda. Como um copo de leite abandonado durante dias e dias ao sol. Abandonaste-me. E eu abandonei o que fui. Para me tornar em algo que não gosto e não quero ser. Mas ainda faltam as forças. Os dias pesam e prolongam-se na ausência de mim e de nós. Permanece apenas a vontade de me enrolar numa bolinha e me deixar ficar sobre a cama.
Maybe tomorrow I'll buy the ticket. Maybe.
06 October 2010
20 September 2010
12 September 2010
Marés
Talvez tenha sido só o choque inicial. Ou talvez seja as férias a ajudar. Hoje sinto que não te sofro. Sinto a vida fluir tranquilamente sem sentimentos arrebatadores de saudade ou de raiva. Acho que são as férias a ajudar.
Hoje apercebi-me, não soubeste tanto do que se passava comigo. Fora dos - ultimamente raros - dias que estávamos juntos, sinto que andei a viver uma vida paralela. Com outros planos, outras preocupações, outras paixões. Apercebo-me do quanto não estive apaixonada por ti, em tempos. Deixei outra pessoa entrar por mim a dentro como um atropelamento. Rápido, violento e com mazelas. E tu nunca deste por nada. Convenci-me que não. Que tu eras uma excelente pessoa e um dia darias um excelente marido. Um excelente pai. E que fazia sentido lutar por aquilo que tínhamos, deixar-me de criancices e de paixões assolapadas.Não abdiquei daquilo que tínhamos por ninguém. Era contigo que tinha decido ficar.
Hoje já nem sei se me arrependo. Essa paixão permanecerá para sempre comigo, acho. Já a tenho à muito tempo. Uns dias pesa mais do que outros. É algo que me reconforta. Mesmo nos dias que tenho a plena consciência que estas paixão só duram no mundo dos sonhos e que no mundo real se desfaria em milissegundos.
Hoje estou em modo maré. Deixo as pessoas fluir na minha vida, ora para dentro, ora para fora. Entram em saem-me do espírito como garrafas vazias presas na rebentação. Num segundo deixo-as entrar. Sonho-lhes o cheiro da pele, o sabor das palavras, a doçura do sexo. De seguida ouço o ranger da porta na sua saída. Uma e outra. A primeira que volta, uma terceira que aparece. É o mundo todo num dia, por mim a dentro. Apaixono-me a cada batida do coração. Num olhar, num toque, num mimo, numa palavras escrita perdida. Num desejo ou num sonho. Tudo é pretexto. Sinto-me leve. Sinto-me solta. Sinto o mundo aberto de par em par. Acho que são as férias a ajudar.
Hoje apercebi-me, não soubeste tanto do que se passava comigo. Fora dos - ultimamente raros - dias que estávamos juntos, sinto que andei a viver uma vida paralela. Com outros planos, outras preocupações, outras paixões. Apercebo-me do quanto não estive apaixonada por ti, em tempos. Deixei outra pessoa entrar por mim a dentro como um atropelamento. Rápido, violento e com mazelas. E tu nunca deste por nada. Convenci-me que não. Que tu eras uma excelente pessoa e um dia darias um excelente marido. Um excelente pai. E que fazia sentido lutar por aquilo que tínhamos, deixar-me de criancices e de paixões assolapadas.Não abdiquei daquilo que tínhamos por ninguém. Era contigo que tinha decido ficar.
Hoje já nem sei se me arrependo. Essa paixão permanecerá para sempre comigo, acho. Já a tenho à muito tempo. Uns dias pesa mais do que outros. É algo que me reconforta. Mesmo nos dias que tenho a plena consciência que estas paixão só duram no mundo dos sonhos e que no mundo real se desfaria em milissegundos.
Hoje estou em modo maré. Deixo as pessoas fluir na minha vida, ora para dentro, ora para fora. Entram em saem-me do espírito como garrafas vazias presas na rebentação. Num segundo deixo-as entrar. Sonho-lhes o cheiro da pele, o sabor das palavras, a doçura do sexo. De seguida ouço o ranger da porta na sua saída. Uma e outra. A primeira que volta, uma terceira que aparece. É o mundo todo num dia, por mim a dentro. Apaixono-me a cada batida do coração. Num olhar, num toque, num mimo, numa palavras escrita perdida. Num desejo ou num sonho. Tudo é pretexto. Sinto-me leve. Sinto-me solta. Sinto o mundo aberto de par em par. Acho que são as férias a ajudar.
10 September 2010
Aniversários
Neste dia 10 vejo-me obrigada a citar o mestre: desejo-te tudo aquilo que sabes que mereces.
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